Contrariando laudos de que teria dificuldade para se alfabetizar, estudante se formará em pedagogia Por Nilson Mariano
Bruna Trindade Antunes vem derrubando prognósticos em torno de alunos com deficiências.
Primeiro, diagnosticaram que demoraria "alguns anos" para se alfabetizar. Ela aprendeu a ler e escrever na 1 a série. Depois, avisaram que não iria longe nos estudos. Pois deverá se formar no curso de Pedagogia, em agosto, na Faculdades Integradas São Judas Tadeu, da Capital.
Em 1990, aos sete anos, Bruna foi dispensada da primeira escola em que se matriculou, na rede particular. Encaminhada para exame médico e psicológico em uma universidade, atestaram que o seu "quociente intelectual não vai além de 67, o que configura um característico quadro de debilidade mental". Previram que demoraria para se alfabetizar. O laudo não abateu Bruna.e seus familiares. Levada a uma escola pública, foi acolhida pela professora Maria Júlia Canibal, que não se conformou com as conclusões sobre a deficiência. Notava que a aluna apresentava dificuldades motoras, principalmente ao se locomover, mas demonstrava uma vontade férrea de aprender.
- Acreditei na capacidade dela, pedi que os outros alunos ajudassem - conta Maria Júlia.
No dia em que Bruna leu o primeiro texto, a sala inteira parou. Os colegas aplaudiram. Na época pesquisadora do Grupo de Estudos sobre Educação, Metodologia de Pesquisa e Ação (Geempa), Maria Júlia escreveu uma resenha sobre a evolução da aluna E arrematou:
- Toda criança é capaz de aprender, desde que se ofereça a ela um ambiente adequado e amplas oportunidades de aprendizagens.
Na sexta-feira, Bruna, Maria Júlia, professores e familiares se encontraram na sede do Geempa, em Porto Alegre, para brindar a nova conquista. Aos 27 anos, Bruna está nos preparativos para se formar. Já encaminhou o trabalho de conclusão do curso de Pedagogia, baseado na sua experiência. O título deverá ser: ''A relação família e escola no processo de inclusão educacional do aluno com deficiência física”. Bruna está contente, um pouco apreensiva com os exames finais. Mais adiante, planeja fazer uma pós-graduação em psicopedagogia. Quer se dedicar ao aprendizado na Educação Infantil e no Ensino Fundamental.
Triunfo comemorado
- A Maria Júlia foi um anjo na minha vida, também agradeço a todos que me ajudaram, pois agora estou enxergando a luz no fim do túnel - derrama-se Bruna.
O pai da formanda, o comissário de Polícia Civil aposentado José Carlos Antunes, recordou que a família sofreu com os preconceitos. Disse que foi penoso ouvir que a filha tinha retardo mental e não acompanhava os demais alunos.
Presidente do Geempa, Esther Pillar Grossi vibrou com o triunfo de Bruna. Ressaltou que o caso confirma uma descoberta de Joseph Jacotot, dita em 1820, de que "todas as inteligências são iguais". Ou a máxima de Jean Piaget, de que "nasceu gente, é inteligente".
- Não tenho a menor dúvida de que uma criança, quando se alfabetiza aos sete anos, está com a sua capacidade inteligente garantida - afirmou Esther Grossi, que fundou o Geempa há 40 anos.
ZERO HORA, 27/3/11.
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